
Desenvolvi este trabalho com uma turma de Educação de Jovens e Adultos, Etapa II, num bairro da periferia de Novo Hamburgo. A turma se compõe de 29 alunos, sendo a maioria adultos, com idades entre 25 e 59 anos, e apenas 3 jovens, com idades entre 18 e 22 anos.
Por estarmos no mês de maio, a temática escolhida coletivamente foi “Trabalho”. Iniciamos a atividade dividindo a turma em grupos, de forma livre, limitando ao número de quatro pessoas por grupo. Cada grupo foi orientado a fazer, a partir da leitura da sua realidade e dos seus locais de moradia e trabalho, um relato de como está a situação de emprego / desemprego nesses contextos, as possibilidades de trabalho formal e informal que lá se apresentam, as condições de trabalho, os padrões salariais e a qualidade de vida dos trabalhadores.
Cada grupo discutiu esses aspectos e, no grande grupo, fez um breve relato oral do que foi discutido. A seguir, os grupos puderam debater entre si as colocações feitas, concordando ou refutando as afirmações dos colegas e levantando as variáveis que intervinham nas condições diferenciadas de cada local.
A seguir, foi construído um texto coletivo com a turma, abordando os aspectos discutidos e propondo idéias para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, onde exista trabalho para todos os trabalhadores e haja cada vez menos privilegiados.
Através da problematização dessas idéias, o debate que aconteceu durante a construção do texto coletivo foi muito frutífero, uma vez que as pessoas iniciaram a atividade falando do trabalho de maneira muito convencional e padronizada, mas, a partir da ampliação do debate e do confronto das diversas realidades e opiniões, estabeleceu-se um processo de fluição, advindo da desacomodação dos conceitos anteriores e dos conflitos internos e coletivos que a impeliram.
Por essa atividade estar sendo desenvolvida numa turma de adultos trabalhadores, o significado do tema trouxe legitimidade à aprendizagem. Estávamos falando do trabalho de cada aluno, mas estávamos também construindo texto, aprendendo dados geográficos, abordando aspectos históricos da região, analisando estatísticas, discutindo direitos humanos e situações trabalhistas, enfim, construindo conhecimentos múltiplos recheados de significação e interesse. Foi um saber muito saboroso, como poderia nos dizer Rubem Alves, pois o conhecimento se dá a partir da construção e da vivência da aprendizagem. Toda aprendizagem necessita da interação com situações significativas para que possa se concretizar.
Piaget nos aponta que a ação do sujeito sobre o objeto determina e propicia a aquisição do conhecimento, através da desacomodação do conhecimento prévio e da assimilação das novas aprendizagens. Esse processo sempre trará transformações no sujeito e no objeto. Segundo Fernando Becker, “O processo educacional que nada transforma está negando a si mesmo”.
Ao colocar em debate a situação de cada aluno como trabalhador, empregado ou desempregado, considerando-se explorado ou não, acreditando-se bem remunerado ou não, respeitado como cidadão ou não, confrontamos realidades e pudemos compreender que existe uma lógica econômico-social que rege as relações de trabalho. Foi através da experiência do outro que pudemos nos reconhecer como sujeito diferenciado e dotado de condições específicas. Acima de tudo, foi importante a descoberta de que não podemos estar isolados como indivíduos, pois desta forma sempre será mais fácil nos tirarem direitos. É necessário que estejamos organizados como classe trabalhadora e que cada um de nós pode fazer a sua parte no sentido dessa organização e do fortalecimento dessa classe. Tudo isso vem ao encontro do que nos coloca Piaget, quando aborda o conhecimento como ação e transformação a partir dessa ação. Foi o que construímos com essa atividade, que nos transformou como sujeitos e certamente transformou as relações de todos nós com nosso trabalho.
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