
Esta atividade foi desencadeada a partir do estudo da obra “Operários”, de Tarsila do Amaral. Apresentei uma reprodução da obra aos alunos da Educação de Jovens e Adultos, etapa III, e fizemos uma análise da mesma, numa conversa informal, destacando aspectos que chamaram a atenção e estabelecendo idéias e hipóteses acerca dela.
Durante o diálogo, como não surgiu a questão das diversas etnias que compunham o quadro, procurei direcionar a conversa para esse viés. Assim, os alunos tomaram consciência das etnias apresentadas na obra e pudemos refletir que a artista possivelmente representara ali a contribuição de todas elas na construção do país com seu trabalho duro e, na maioria das vezes, explorado pelos detentores do capital.
Foi um lindo trabalho porque nos permitiu pensar sobre a importância de todas as etnias no contexto brasileiro e sobre como é tratada cada uma delas. Surgiram reflexões, por exemplo, sobre a questão indígena, no sentido de questionar o porquê desse povo, primeiros habitantes de nosso país, donos absolutos dessas terras antes da invasão dos portugueses, hoje se vêem relegados à acampamentos de beira de estrada, pequenas reservas ou até mesmo às ruas, onde tentam sobreviver a partir da venda de seu artesanato.
A discriminação em relação aos negros também foi apontada como um problema, principalmente no que diz respeito ao emprego. Os negros sempre são preteridos e essa discriminação ocorre de forma tão velada que se torna impossível até a denúncia.
Após toda essa conversa provocada pela análise da obra de Tarsila do Amaral, passamos a construir uma releitura dela, sendo que cada aluno deveria, numa bandeja plástica, desenhar seu rosto, utilizando qualquer material disponível (a maioria usou tinta). Após, com fios de lã, foram colocados cabelos nos rostos, completando o que se pode chamar de auto-retratos. Combinamos que cada um buscasse evidenciar na sua representação, além da semelhança, a sua identidade étnica.
Interessante perceber, no final dos trabalhos, que alguns alunos não buscaram identificar-se no que diz respeito à sua etnia. Pessoas com cabelos encaracolados e pele escura representaram-se em bandejas brancas e cabelos amarelos ou marrom claros. Entretanto, também houve casos de alunos que apontaram a falta de bandejas de cor marrom, já que eu só havia disponibilizado bandejas brancas e creme. Precisei explicar que não era, de minha parte, nenhuma atitude discriminatória, apenas não tinha encontrado bandejas escuras, mas eles poderiam pintar as bandejas da cor que quisessem.
Ao final das composições dos rostos, montamos um painel com a releitura da obra, sendo que os alunos quiseram dispor os rostos diagonalmente no papel pardo, da mesma forma que Tarsila havia representado no quadro. Escolhemos o nome da nossa obra, que ficou “Carinhas da turma C” e depois a expusemos no mural.
Foi um trabalho muito interessante, pois trouxe à tona o debate sobre as etnias e propiciou a identificação de muitos dos alunos nesse contexto. As falas sobre a contribuição de todos os povos nos colocaram como “autores” desse país, como protagonistas de nossa história, de nossa cultura e nosso progresso. Pude constatar a importância de trabalharmos os negros e indígenas, principalmente, num enfoque positivo, evidenciando as contribuições, a importância de sua cultura, as personalidades que se projetam positivamente. Precisamos construir a identidade étnica não através da condescendência, mas da consciência dos direitos e da igualdade de oportunidades. Para isso, é necessário que se apresente imagens e representações muito positivas e que busquemos nessas representações o impulso para alavancar a luta pela promoção da igualdade racial.
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