Sempre compreendi que a adolescência é uma fase difícil, conflituosa, cheia de dúvidas e inquietações. Mas a questão da agressividade era, para mim, incompreensível. Costumava atribuí-la ao ambiente familiar ou ao meio no qual os adolescentes estavam inseridos.
Estudar o desenvolvimento moral do indivíduo foi muito significativo para mim pois me colocou no caminho da pesquisa deste assunto e me levou a descobrir que existe sim a possibilidade de atuarmos sobre a violência ou a agressividade dos adolescentes, uma vez que essas questões não são inatas nem empíricas. Por isso, quis publicar aqui esse texto produzido por mim que trata dessa questão:
DESENVOLVIMENTO MORAL
Simone de Azevedo Moura
No ano de 2008, trabalhei com turmas de quintas séries, num bairro da periferia de Novo Hamburgo e tive inúmeras experiências que envolviam agressões verbais ou físicas entre meus alunos. Relatarei a seguir uma das situações que considerei especialmente traumática pela falta de entendimento e pelas reações equivocadas da maioria das partes envolvidas no conflito.
Aconteceu durante o período do recreio, enquanto os alunos corriam, jogavam bola, brincavam e conversavam. Eu estava observando, já que era aquele o meu dia na escala de “cuidar o recreio”. De repente, no grupo que jogava bola, um dos alunos chutou a bola e atingiu outro colega no rosto. A reação foi imediata. O aluno atingido partiu para cima do colega que chutou a bola e começou a socá-lo. Os demais, como normalmente acontece, cercaram a dupla que brigava e passaram a incentivar a briga com gritos e assovios. Em seguida, percebendo o tumulto, chegou a Guarda Municipal que trabalhava dentro da escola e interviu, segurando um dos meninos – o que estva mais agitado. Logo que sentiu-se tolhido pela Guarda Municipal, o menino reagiu de forma ainda mais agressiva, voltando-se contra ela, chutando-a e empurrando-a de forma violenta. A Guarda havia chamado reforço anteriormente, quando avistou a briga de longe. Em seguida, durante a agressão do menino a ela, chegaram mais três Guardas Municipais e o imobilizaram, empurrando-o de frente para uma parede e dando-lhes alguns “safanões”. Depois, algemaram o menino e o colocaram numa viatura, levando-o à Delegacia para registrar ocorrência.
Tentei relatar este fato da maneira mais isenta possível, mas ainda hoje tremo ao lembrar-me dele. Mas tremo de indignação pela violência que foi aplicada àquela criança de onze anos, agarrada rudemente por quatro guardas, algemada na presença de todos os colegas que gritavam e assoviavam diante do espetáculo bizarro e ainda levada a uma delegacia de polícia para ser denunciado como agressor de uma autoridade.
O texto de Jaqueline Picetti colocou minha indignação, de certa forma, no rol dos sentimentos “embasados teoricamente”. Trouxe-me a certeza de que não estava errada quando defendi o menino durante o episódio e denunciei a intervenção dos guardas municipais como truculenta e indevida. Essa intervenção custou-me muitas condenações por parte dos colegas professores, da direção da escola e até de muitos alunos que acreditavam que o menino tinha merecido o tratamento que lhe foi dado, pois “era muito violento e não continha suas reações diante de fatos mínimos que lhe desagradasse”. Jaqueline Picetti coloca claramente que é uma tendência nossa, como educadores, justificar a violência como fruto do ambiente em que se vive (numa concepção empirista) ou da constituição familiar, genética (numa concepção inatista). Piaget, em sua concepção interacionista, aponta para a interação entre o ser e o meio e todas as variáveis que daí poderão surgir para explicar o fato de que o indivíduo constrói seu processo de desenvolvimento moral a partir de tudo isso.
Meu aluno, naquele conflito, reagiu da forma que sua moralidade naquele momento o instruiu. Devolveu o que considerou uma agressão (a bolada do colega) com outro movimento agressivo. Cabia, naquele momento, a nós, adultos, separar a briga e problematizar aquele conflito para que pudéssemos realizar um processo de reflexão crítica que traria o problema, conforme Adorno também aponta, ao nível da consciência. Entretanto, a reação dos guardas – talvez numa ótica de treinamento militar ao qual são submetidos – foi ainda mais violenta e o conflito tornou-se um ciclo de agressões. A intervenção dos guardas foi equivocada. O caso acabou na Delegacia, com o menino sendo humilhado e retornando à escola com muita raiva, o que fatalmente acabaria gerando outros conflitos futuros.
Quanto às repercussões do fato, Picetti explica pontualmente as manifestações de aprovação por parte dos próprios alunos em relação à truculência dos guardas, quando coloca
“Piaget (1994) também constatou, em seus estudos, que há dois tipos de reações em relação às sanções (punições): num primeiro momento do processo, a criança considera a sanção necessária e quanto mais severa ela for, mais justa o será; num segundo momento, as crianças consideram justas as sanções que exigem uma restituição. Acreditam que a sanção deve corresponder exatamente ao ato cometido, para que o culpado sofra as conseqüências de sua falta.” (PICETTI, Jaqueline. Significações de violência na Escola: Equívocos da compreensão dos processos de desenvolvimento moral na criança?)
Nesse sentido, é possível avaliar com tranqüilidade a reação dos alunos, já que exerciam seu processo de desenvolvimento moral. Entretanto, é necessário ver com certa preocupação a atitude dos adultos envolvidos no fato, pois nelas se percebe, além de desrespeito à infância e ao que ela representa, mas também uma grande incompreensão em relação aos processos de desenvolvimento moral da criança.
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