Falar sobre minhas aprendizagens nunca é tarefa fácil para mim. Por algum motivo, tendo a “deletar” experiências que envolvem a educação formal e, ao mesmo tempo, não consigo identificar meus processos de construção pessoal. É algo que venho colocando desde o primeiro memorial que precisei escrever buscando experiências anteriores de aprendizagem.
Falarei de uma aprendizagem na minha trajetória profissional que foi muito marcante. Talvez esta aprendizagem tenha sido, inclusive, a base para que eu me transformasse na educadora que sou hoje.
No ano de 1998, pedi transferência da escolinha rural na qual trabalhava, no interior de Lomba Grande, em Novo Hamburgo, pedindo para atuar numa escola grande, com alunos maiores, pois estava um tanto cansada da rotina daquela escola tão pequena, cujos alunos eram tão previsíveis, os pais tão pouco participativos e os colegas tão “mansos”. Meu pedido foi aceito e fui encaminhada a uma escola bem grande, com Ensino Fundamental completo, na periferia de Novo Hamburgo, na qual passaria a atuar na disciplina de Português (estava cursando Letras na época) nas turmas de sétima e oitava série.
Meu primeiro dia foi inesquecível. Cheguei numa sala de aula onde mais de trinta rostos pré-adolescentes me fitavam com um olhar entre desconfiado, analítico e já reprovador. Fui dominada pelo pânico e senti imediata e insuperável saudade do irritante mugido das vacas na minha escolinha do interior onde tudo era tão tranqüilo e previsível. Cheguei como todos os professores novos chegam: cheia de planejamento e atividades diferentes pensadas para “entreter” meus novos alunos e faze-los me considerarem uma professora suportável.
Não preciso dizer que meu planejamento do primeiro dia não foi além do bom dia, e que, ao final do primeiro período, eu já não tinha voz suficiente para pedir que a turma sentasse. No segundo dia, aconteceu o mesmo e, no final da primeira semana, estava eu sentada na sala da direção chorando e dizendo que talvez tivesse me enganado com a escolha da escola.
Tive, então, a felicidade de encontrar em meu caminho, no momento em que estava pronta para desistir e pedir para voltar à paisagem bucólica de minha escolinha do interior, um educador popular que gargalhou ao ouvir minha história e me contou muitas mais. Em todas essas histórias, os personagens eram semelhantes e as ações também, mas o desfecho era muito diferente. Esse educador me disse que era necessário entender que com a universalização da escola, hoje o povo está lá. Isso nos diz que precisamos entender a diversidade e trabalhar a partir dela e com ela.
Esse educador me perguntou do que meus novos alunos gostavam e eu não sabia responder. Perguntou o que meus alunos faziam quando não estavam na escola e eu tampouco respondi. Perguntou o que eu sabia sobre a vida desses alunos e eu não soube dizer nada. Foi aí que entendi que o problema não estava em meus alunos, também não estava em mim, estava numa relação estabelecida de forma desvinculada de qualquer contexto humano de respeito às individualidades e às diferenças. Estava numa relação burocratizada de professor e aluno na qual cada um tinha seu campo de combate e nenhum espaço para entendimento. Aprendi.
A partir dessa aprendizagem, procurei lembrar do que tinha visto meus alunos fazerem no recreio, dos assuntos de suas conversas, da sua forma de vestir... No dia seguinte, adentrei na escola munida de rádio, cds e sorrisos. Trouxe uma música em especial, escolhida com todo o carinho – um rap – que despertou olhares de espanto e sorrisos de satisfação e cumplicidade. Conversei com eles, contextualizei, rimos, brincamos, produzimos textos orais e escritos. Terminou a primeira aula daquele dia e me perguntaram quando teria aula de Português novamente. Saí de lá com sorrisos nos lábios e nos olhos e, a partir desse momento, nunca mais tornei a encarar meus alunos colocando-os em outro mundo que não o meu.
Fui a paraninfa na formatura de oitava série dessa turma. Agradeci a eles em meu discurso, mas por mais que tenha sido clara acredito que eles jamais imaginarão o quanto ajudaram essa professora a aprender, o quanto me ensinaram a ensinar e o quanto me fizeram crescer como pessoa. Lembro de cada um e cada uma de forma especial e sou-lhes sempre grata pela constituição da educadora que sou hoje.
terça-feira, 7 de julho de 2009
UMA APRENDIZAGEM ESPECIAL
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