
A interdisciplina de Didática, planejamento e avaliação, no decorrer desse semestre, me trouxe a oportunidade de refletir sobre alguns conceitos que permeiam minha prática docente.
Sou professora já há vinte e cinco anos. Essa experiência diversificada e longa fez com que me tornasse muito convicta de meus pontos de vista pedagógicos e muito pouco disposta a pensar sobre eles, sendo para simplesmente reafirmar essas convicções ou para problematizá-las e repensá-las.
A partir das leituras e das elaborações que realizei a partir das mesmas, pude me deparar com alguns desses conceitos, como o de planejamento, projetos, tema gerador, currículo integrado e avaliação.
Nesse semestre, não estou atuando em sala de aula. Estou atuando num projeto da Secretaria de Desenvolvimento Social de Novo Hamburgo que está voltado à educação social da população em situação de rua. Portanto, não tenho sala de aula, alunos, conteúdo, equipe diretiva, nem qualquer outro elemento que se faça presente na escola formal. Entretanto, nunca me senti tão educadora como me sinto hoje. E esse sentimento muito se faz permeado pelas reflexões que tive a oportunidade de realizar na interdisciplina de Didática, Planejamento e Avaliação.
Parece um tanto contraditório que uma interdisciplina que engloba conceitos tão pertinentes à realidade escolar me leve a refletir sobre minha prática que se refere à educação não escolar. Porém, foi estranhamente através dessa polarização que pude estabelecer um paralelo entre minhas práticas escolares em relação a essa nova realidade não escolar que hoje vivencio e embrenhar-me por caminhos nada ortodoxos, mas que me levaram a descobrir que a educação está acima de método, espaço, tempo, papel, medida ou hierarquia.
Reli Paulo Freire e, confesso, voltei a entrar em conflito – o que acontece cada vez que o releio e o redescubro (creio que a grande missão educadora de Freire foi causar o conflito que nos desacomoda e impele ao crescimento). Questionei-me sobre minhas limitadas possibilidades, como professora, de “educar” aquelas pessoas que nada têm na vida a não ser a rua que as acolhe. Afinal, como ficaria, agora, meu planejamento, a avaliação? Como poderia desenvolver com essas pessoas, na maioria adolescentes dependentes químicos e com histórias de vida repletas de desilusão e miséria, propor um projeto pedagógico ou um tema gerador que impulsionasse aprendizagem? E sobre o que aprenderíamos se não temos um currículo a desenvolver nem conteúdos a cumprir, se o lápis e o papel só entram nesse cenário se forem desejados e as atividades são tão inusitadas quanto singelas?
Mas minhas leituras e reflexões trouxeram-me o necessário equilíbrio e Freire me disse que à sombra da mangueira também se aprende e que aprender a ler o mundo precede o ato de aprender a ler a palavra escrita. Portanto, reafirmo agora que nunca me senti tão educadora como neste momento.
Cada vez que sento no chão ou no banco da praça e me vejo cercada por pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes em suas histórias de perdas e sofrimento, descubro que a vida nos traz os temas geradores por ela mesma, e que basta que saibamos ouvir as pessoas para que elas nos indiquem o que desejam aprender. Cada assunto levantado por um de nós é fonte de levantamento de dúvidas e certezas que são colocadas e contestadas ou reafirmadas e se transformam em material de descobertas para todos, num projeto de aprendizagem que nunca se esgota porque as perguntas da vida nunca são respondidas, mas nos leva a caminhos de reflexão e crescimento. O currículo, hoje, é a possibilidade de melhorar a qualidade de vida de cada um, a necessidade de despir minha visão de mundo e tentar ver esse mundo da forma como o outro o vê. A avaliação é feita a cada palavra, cada atitude, cada possibilidade de intervenção, pois qualquer detalhe pode romper peremptoriamente vínculos construídos com tanto trabalho e esforço.
Em um de meus trabalhos desta interdisciplina, escrevi que “Freire pensa a educação de forma emancipatória. Opõe-se radicalmente à educação convencional e tradicionalmente aceita na sociedade capitalista em que vivemos. Para isso, formulou alternativas pedagógicas que visam à conscientização do homem como ser político que é, com todos os vieses que essa condição implica, assim como à sua desalienação. Para tanto, o diálogo, a crítica, a reflexão e a contextualização se fazem fundamentais.” Relendo esse trabalho, sinto-me ainda mais respaldada. É nisso que consiste o que faço hoje. Assim, me desfaço de uma sensação incômoda que trazia comigo de que, como educadora, estava desenvolvendo uma atividade irrelevante, assistencial, o que não é, de forma alguma, verdade. Meu trabalho educativo com essas pessoas é fundamental, pois representa a possibilidade de mediação da troca de saberes, o que a rua, por sua característica ligada à defesa da vida e à sobrevivência, não permite. Sou necessária na medida em que não invado esse espaço nem me imponho às pessoas, mas sou aceita como alguém que está ali para contribuir e cujos movimentos convergem para a construção de saberes que venham a melhorar a vida de todos. Não salvarei vidas, não eliminarei dependências, não oferecerei comida ou qualquer outro benefício material, mas conversaremos sobre isso e tentaremos encontrar as alternativas e os caminhos das políticas públicas que existem e, se não existem, devem ser reivindicadas. E quando aprendemos isso, mesmo vivendo na rua, não tendo casa, família, emprego ou dinheiro, deixamos de ser alienados e nos tornamos cidadãos.
Quero concluir essa postagem trazendo mais uma citação de Freire, com as devidas desculpas aos demais autores que li nessa interdisciplina e que tanto contribuíram, também, para minha aprendizagem. Trago-a por sua relevância para nós, educadores, estando entre as paredes da escola ou à sombra de uma mangueira, sempre que entramos em conflito e começamos a crer que estamos errados ou que não temos o retorno esperado para nossas ações. Freire diz que “A grande questão ao avaliarmos nossas ações é que não se faz o que se quer, mas o que se pode. Uma das questões fundamentais é tornar possível o que não parece ser possível. A gente tem que lutar para tornar possível o que ainda não é possível” (Paulo Freire, 1991)
Portanto, companheiros de aprendizagem desta vida, somos realistas, pois desejamos o impossível.
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