
Sempre tive uma especial predileção pelo trabalho que envolve a linguagem, portanto, a interdisciplina de Linguagem e Educação foi, para mim, muito interessante, principalmente no que tange a alguns conceitos que permeavam minha prática em sala de aula e sobre os quais nunca havia refletido e elaborado, como o de letramento e a sua relação com a alfabetização.
Costumava trabalhar com meus alunos de forma que a aprendizagem da leitura e da escrita precedesse o seu uso. Portanto, primeiro se aprenderia a ler e a escrever, depois se desenvolveria os mecanismos de utilização da leitura e da escrita, como se a aquisição da leitura e da escrita ocorresse para a criança num processo sistemático padronizado e desvinculado do uso da linguagem nos diversos contextos e da oralidade.
A partir das leituras realizadas nesta interdisciplina constatei que, apesar de acreditar que meu trabalho priorizava o letramento social, na verdade direcionava minhas ações para o letramento escolar, colocando a leitura e a escrita como objetos a serem aprendidos, mas pouco promovendo a apropriação dos contextos que envolviam essa aprendizagem, tornando-a desvinculada do seu uso social.
A reflexão acerca desses conceitos me revelaram que, apesar de me julgar uma educadora consciente e protagonista de meu papel social, sucumbia sistematicamente a práticas escolares de letramento ideologicamente fundamentadas pelo sistema capitalista que aceita a desigualdade como inerente à sociedade. Minhas ações supostamente emancipatórias infelizmente poderiam determinar que meus alunos simplesmente seguissem caminhos já determinados previamente a partir de suas classes sociais ou etnias, desconsiderando suas potencialidades.
É previsível, portanto, que, ao elaborar a atividade que envolvia o planejamento de um dia letivo voltado para a linguagem, tive muitos conflitos. Passei a confrontar meu planejamento cotidiano e a ter dificuldades em buscar ações que fossem efetivamente voltadas para o uso social da linguagem e que se distanciassem das práticas escolares padronizadas e atreladas ao mecanismo lingüístico.
A partir daí, pude compreender que a linguagem não é estática e nem impermeável. Ela nasce e se transforma a partir de um contexto histórico-social-cultural e se flexibiliza em função das necessidades desse contexto, assim como da finalidade e dos interesses que precedem a expressão.
A percepção de que julgar a fala ou a escrita de meus alunos como certas ou erradas é, antes de tudo, uma ação preconceituosa e restritiva foi uma construção importante e radical na minha prática pedagógica. A linguagem está totalmente inerente ao contexto, ela também sofre influência das subjetividades. Portanto, não se fala, lê ou escreve sempre do mesmo jeito, mas se adota as variações que tragam à nossa fala, leitura ou escrita o sentido que não está na linguagem em si, mas construções que fazemos a partir dessa linguagem no momento, local e situação em que a estamos utilizando.
A consciência da existência de múltiplas linguagens e da necessidade de que se oportunize situações em que os alunos possam confrontá-las, problematizá-las e refletir sobre seu uso diante dos padrões existentes e do contexto em que nos encontramos transformou minha prática pedagógica e me levou a compreender melhor meu papel de promotora da emancipação dos sujeitos que são meus alunos e que necessitam ser contemplados em suas singularidades, subjetividades e diferenças.
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