
O foco do trabalho desta semana de estágio foi o projeto de aprendizagem que iniciamos agora formalmente, intitulado provisoriamente NOSSA CULTURA. Este trabalho está centrado na questão cultural das etnias apontadas pelos alunos como constituintes das origens de suas famílias (culinária, música, religião, vestimenta, língua, festividades e outros costumes), com o objetivo de investigar em que pontos a cultura desses povos ainda está presente no modo de vida e nos costumes das mesmas.
Com o desenvolvimento desse PA, estou tendo muitas oportunidades de reflexão e aprendizagem. A semana que passou foi marcada por momento em que fui atingida por muitas dúvidas, reformulei idéias e caminhos e busquei muita leitura para fundamentar minhas reflexões. Falei sobre isso em minha reflexão semanal e penso que devo continuar refletindo nesse espaço, pois foi o que se constituiu como mais significativo na minha caminhada dos últimos dias.
No transcorrer do trabalho, pude perceber nitidamente que as crianças não estão familiarizadas com o trabalho de pesquisa. Era possível notar que este trabalho, a princípio, lhes era muito abstrato. Quando eu propunha a pesquisa, logo buscavam um texto ou outro material do qual pudessem reproduzir uma cópia, sem buscar maiores respostas às questões que se sobressaíam. Acredito que este primeiro projeto de aprendizagem não chegue sequer próximo ao ideal de um trabalho de pesquisa e investigação, mas o considero importante como uma atividade que abrirá horizontes nesse sentido.
As crianças apresentaram dificuldades em levantar suas certezas provisórias e suas dúvidas temporárias, mas atribuo esse fato justamente à falta de intimidade com a pesquisa. Existe uma tendência de educação bancária que ainda sobrevive em nossas escolas, na qual os educandos recebem as informações neles depositadas e, após, as devolvem da forma que o educador solicitar. Quando sobrevém a oportunidade de que busquem a aprendizagem a partir do que sabem ou desejam saber, ocorre um eclipse no que tange a esses elementos. “Eis aí a concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los. Margem para serem colecionadores ou fichadores das coisas que arquivam. No fundo, porém, os grandes arquivados são os homens, nesta (na melhor das hipóteses) equivocada concepção “bancária” da educação”. (Freire, 1983, p.66)
Dessa forma, a perspectiva de iniciar os educandos nos caminhos da investigação, da pesquisa, da autonomia na sua aprendizagem não é uma tarefa fácil. É necessário que se quebrem muitos paradigmas ainda resistentes em nossas escolas e que se proponha a liberdade em nossas atividades, em nosso planejamento, em nossa orientação, em nossa problematização.
Em alguns momentos, eu mesma deparei-me com um sentimento de antecipação das respostas e reações das crianças. Percebi que propunha questões cujas respostas já havia planejado para que meu trabalho não se desestruturasse ou não saísse dos rumos traçados em meu planejamento. Um desses momentos que muito me fez pensar foi quando uma das crianças observou, referindo-se ao fato de aparecerem muitas famílias indicando a origem italiana na sua constituição, que acreditava que isso acontecia por causa da novela. A observação, de impacto, me assustou. Não havia pensado nisso. Não havia previsto alguma conclusão desse gênero. Isso me fez pensar: por que deveria prever? Por que devemos tentar prever as descobertas de nossos alunos, se estes são fontes de tantas possibilidades? No momento em que planejamos prevendo as perguntas e as respostas, limitamos nossa esfera de ação e a dos educandos. Transformamo-nos, então, em narradores, em sujeitos únicos de um processo de mão única que não pode ocorrer quando nos pautamos pela interação e pela construção do conhecimento. “Narração de conteúdos que (...) tendem a petrificar-se ou a fazer-se algo quase morto, sejam valores ou dimensões concretas da realidade.” (Freire, 1983, p.65)
Quando me deparei assustada com a possibilidade de um desvio de curso nos argumentos e conceitos que vinha buscando construir com as crianças, percebi o quanto esta concepção narrativa e opressora está arraigada em cada um de nós. Percebi que precisamos lutar todos os dias e todos os momentos para não cair na armadilha do saber autorizado, da doação do saber. A observação da aluna me fez pensar num contexto mais amplo e, a partir daí, deixei de esperar respostas ou perguntas e permiti que estas fluíssem livremente, numa relação de parceria com os educandos. “Um educador humanista, revolucionário, não há de esperar esta possibilidade. Sua ação, identificando-se logo com a dos educandos, deve orientar-se no sentido da humanização de ambos. Do pensar autêntico e não no sentido da doação, da entrega do saber. (...) Isto tudo exige dele que seja um companheiro dos educando, em suas relações com estes.” (Freire, 1983, p.71)
Foi muito bom retomar a leitura da Pedagogia do Oprimido, de Freire, ao refletir sobre a construção e o desenvolvimento do projeto de aprendizagem em que estamos trabalhando. Devo dizer que foi uma retomada necessária, pois me fez perceber que preciso readequar meu planejamento no que tange ao PA para que este não se torne mais uma fórmula com resultados estimados. Apesar do seu formato pré-determinado, o PA que estamos desenvolvendo deverá manter-se liberto do engessamento, aberto para a investigação do que os educandos desejam e não para o foco que eu – educadora – vislumbro. Só assim estaremos efetivamente construindo aprendizagens significativas e não estaremos apenas reproduzindo tarefas bem formuladas e aparentemente bonitas para impressionar os que olham e nos trazerem a gratificante sensação de que estamos ensinando.
2 comentários:
Olá Simone!
Ao ler esta tua postagem lembrei-me das angústias e dificuldades que enfrentamos no PEAD ao trabalharmos com os PAs. Lembra das discussões que foram travadas nas aulas presenciais?
Acredito que a possibilidade de nos olharmos e analisarmos como alunos ajude a pensar sobre nossas práticas pedagógicas enquanto professoras. O que achas?
PS. Não esqueças de citar a referência completa dos materiais citados ao longo do texto. Se tiveres dúvida sobre como fazer consulte o material disponível em: http://peadsaoleopoldo.pbworks.com/f/referencias.pdf
Olá Simone!
Para pensares:
Por que desconstruir? Não poderia ser construindo e reconstruindo?
Abraços, Cátia
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