A sétima semana de minha prática de estágio foi bem curta, uma vez que houve o feriado prolongado na quinta e sexta-feira. Entretanto, pude vivenciar, neste período, uma experiência muito gratificante e, ao mesmo tempo, bastante desafiadora.
Na semana anterior, minha postagem nesse blog referiu-se, principalmente, à minha contrariedade em seguir o formato do projeto de aprendizagem proposto durante o PEAD. Fundamentei minha contrariedade e argumentei mais fortemente contra a necessidade de construir com as crianças os mapas conceituais que me estavam sendo cobrados.
Nesta semana, entretanto, tomei coragem e propus aos alunos a construção desses mapas. Logicamente, não usei a terminologia (a princípio) por acreditar que a denominação “mapa conceitual” não faria sentido para os alunos.
Iniciei pedindo que os grupos listassem algumas palavras que considerassem fundamentais para explicar seu trabalho de pesquisa. Ali já iniciou minha surpresa, pois todos os grupos, num tempo muito curto, conseguiram listar essas palavras com muita facilidade.
Já com as listas de palavras, solicitei que as escrevessem em cartões e, sobre um papel pardo, distribuíssem as palavras de forma que houvesse uma ligação entre elas, dando sentido ao conjunto. Essa tarefa foi realizada com seriedade, concentração e rapidez surpreendentes. As crianças ordenaram e reordenaram as palavras a partir de uma linha de raciocínio que explicitava de forma muito clara a forma como estavam construindo suas aprendizagens acerca do assunto pesquisado. Não precisei interferir no trabalho de nenhum grupo. Ao contrário, permiti-me transitar entre eles e observar o que, para mim, era um momento de superação... só que a superação, na verdade, era minha, pois a dificuldade e a resistência em relação ao trabalho com os mapas conceituais eram minhas e eu, autoritariamente, as estava impondo a meus alunos e alunas.
Refletindo sobre esse momento de aprendizagem marcante para mim enquanto educadora, lembro o pensamento de Freire quando coloca que “não há docência sem discência, as duas se explicam e os seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.” (Freire, 1997, p.25). Nunca me senti um ser tão aprendente quanto naquele momento em que, supostamente, estava ensinando meus alunos a sistematizarem seus conhecimentos através de mapas conceituais, o que, para mim, era uma tarefa muito difícil, e que essas crianças ensinaram-me a desmistificar através de sua organização e da transposição de suas construções no coletivo, na forma mais autêntica da educação popular.
Posso afirmar que nesta sétima semana de estágio, pude reafirmar minha crença de que a educação popular - na qual se fundamenta todo o meu projeto de estágio - está inserida na escola pelo simples fato de que a escola é um elemento agregador das classes populares e tem, nesse contexto, o seu papel social e cultural. Trabalhamos com educação popular quando trabalhamos de forma dialógica, contextualizada, buscando na realidade os recursos para a sua transformação. Trabalhamos com educação popular quando não nos fixamos na rigidez do método, mas, ao mesmo tempo, não perdemos de vista, como aponta Paulo Freire, a necessidade da rigorosidade metódica e a busca da construção do conhecimento científico como instrumento para a mudança (Freire, 1997).
Nesse processo de ação-reflexão-ação pelo qual me norteio, creio estar crescendo como educadora através de um caminho que promete ser frutífero e que, nesse transcorrer, muito poderei ensinar e muito poderei aprender, sempre concebendo a aprendizagem como um processo coletivo no qual todos os sujeitos se educam em comunhão (Freire, 1994).
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. São Paulo: Paz e Terra, 1994.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes indispensáveis à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
1 comentários:
Olá Simone!
Este teu registro traz evidências e bons argumentos de tuas aprendizagens. Meu olhar sobre os mapas conceituais é que, com eles podemos sistematizar de uma forma clara e sintetizada nossos conhecimentos num determinado momento das nossas aprendizagens. Não os vejo como uma metodologia rígida, inflexível e fechada, mas como um meio de nos apropriarmos das nossas aprendizagens. Teu registro apresenta evidências disto.
Em relação a tua defesa da Educação Popular te faço uma provocação: Por que utiliza o termo "nortear"?
Dizia Freire (Pedagogia da Esperança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p.12):
"Por outro lado, apesar de alguns anos de experiência como educador, com trabalhadores urbanos e rurais, eu ainda quase sempre partia de meu mundo, sem mais explicação, como se ele devesse ser o “sul” que os orientasse. Era como se minha palavra, meu tema, minha leitura do mundo,em si mesmas, tivessem o poder de suleá-los."
Que tal começarmos a Sulear nossas ações e reflexões? Para isto indico a leitura dos materiais disponíveis em:
*http://www.sulear.com.br/texto03.pdf
*http://clickeaprenda.uol.com.br/cgi-local/lib-site/conteudo/mostra_conteudo.pl?nivel=m&disc=NOT&codpag=NOT0901190201
*http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=1356
*http://www.rbceonline.org.br/congressos/index.php/CSBCE/IVCSBCE/paper/view/219/261 ver página 5.
Abraços, Cátia
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