Iniciamos a semana com a cópia e leitura do texto “Meninos de todas as cores”. Escolhi este texto devido a suas possibilidades de exploração da temática do respeito à diversidade, do preconceito, e da discriminação.
Realizamos a leitura oral e coletiva do texto, e também o fizemos em forma de leitura dramatizada, dividindo os alunos em grupos que representavam os meninos de cada cor, que liam as respectivas falas enquanto um aluno fazia a narração da história.
Um fato interessante que aconteceu no decorrer dessa atividade foi o questionamento, por parte das crianças, acerca do porquê do texto falar apenas em meninos e nunca em meninas. Assim, iniciou-se um debate sobre a maneira discriminatória com que as mulheres são tratadas e que um desses indicadores é o fato de, quando uma fala se dirige a um grande grupo composto de homens e mulheres, geralmente se utiliza o masculino. Uma das meninas fez a seguinte pergunta: “Profe, quando tu fala da gente, tu diz “as minhas alunas” ou “os meus alunos”?” (sic). Foi uma provocação instigante e que me fez pensar. Se acredito na educação popular e esta se baseia em princípios não discriminatórios e, portanto, não sexistas, como posso referir-me à turma como “meus alunos”, no masculino, como se as alunas estivessem apenas subentendidas nesse contexto?
Respondi à menina dizendo que estava muito feliz com sua pergunta e que, às vezes, realmente me referia à turma como “meus alunos”, mas que tento sempre dizer “meus alunos e minhas alunas”, ou então “crianças”.
O tema foi objeto de bastante discussão e precisei de alguma habilidade a fim de trazer para a pauta as temáticas que havia previsto inicialmente como o foco da exploração do texto. Esse fato me remeteu ao que diz Marta Pernambuco, no livro organizado por Nídia Nacib Pontuschka, intitulado “Ousadia no diálogo – Interdisciplinaridade na escola pública”:
“Ir além do senso comum e superar uma visão falsa ou distorcida dos fatos é um exercício permanente que é preciso fazer. É um exercício de “pensar sobre o pensar”, de criticar o próprio procedimento de pensar, descobrir no que se baseia, buscar onde e como estamos distorcendo a realidade ou ignorando informações. Só assim pode-se fazer uma valoração seletiva da forma primeira de encarar o mundo, redescobrindo valores, compatibilizando comportamentos com opiniões, encontrando, modificando, ampliando a forma de se organizar.” (1993, p. 78)
Nesse sentido, deixei fluir o debate, incluindo no mesmo as outras temáticas com sutileza e acrescentando na interpretação escrita alguns itens que contemplassem a questão de gênero que havia predominado no decorrer de nosso diálogo.
Esse momento foi de grande aprendizagem para todos e todas nós. De minha parte, tive a possibilidade de ser confrontada com minhas próprias práticas e de questionar não só meu planejamento baseado na previsibilidade, mas também meu posicionamento diante de questões importantes como as relações de gênero. De parte das crianças, houve a oportunidade da troca de experiências, reconstrução de valores e a ampliação da consciência no que tange à descoberta de que o mundo abrange paradigmas que, sem percebermos, nos induzem à discriminação e à desigualdade.
Gadotti, em “Boniteza de um sonho”, aponta para a necessidade de repensarmos nosso papel de educadores e coloca:
“O poder do professor está tanto na sua capacidade de refletir criticamente sobre a realidade para transformá-la quanto na possibilidade de formar um grupo de companheiros e companheiras para lutar por uma causa em comum. Paulo Freire insistia que a escola transformadora era a “escola de companheirismo”, por isso sua pedagogia é uma pedagogia do diálogo, das trocas, do encontro, das redes solidárias. “Companheiro” vem do latim e significa “aquele que partilha o pão”. Trata-se portanto de uma postura radical ao mesmo tempo crítica e solidária”. (2003, p. 73).
Essa radicalidade crítica e solidária é o que me move hoje como educadora. Já não posso mais compactuar com o papel limitador do professor que “dá aula”. Procuro, ao contrário, estar com os educandos e educandas na mesma jornada. Procuro companheiros e companheiras que efetivamente compartilhem comigo o pão da aprendizagem. Procuro surpreender e ser surpreendida em todos os instantes através da provocação, da troca, do encontro e dos desafios.
Como Freire (1982), não sou esperançosa por teimosia, mas por necessidade existencial e histórica. Um dito popular coloca, da mesma forma, que “o sapo não pula por boniteza, mas por precisão”. Não compreendo, tal como Freire, a existência e a sua transformação sem a utopia e sem a esperança. E é com essa utopia e toda a esperança que me faz humana que insisto em crer na educação como instrumento de emancipação e de mudança.
“Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas para participar de práticas com ela coerentes”. (Freire, 2000, p.33).
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes indispensáveis à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997
FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. SãoPaulo: UNESP, 2000.
GADOTTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. Novo Hamburgo: Feevale, 2003.
PERNAMBUCO, Marta. Significações e realidade: conhecimento. In PONTUSCHKA, Nídia Nacib (org.) Ousadia no diálogo – Interdisciplinaridade na escola pública. São Paulo: Loyola, 1993.
1 comentários:
Olá Simone!
Tua postagem está bem articulada com os pressupostos teóricos que embasam tua prática, entretanto a solicitação do Seminário Integrador é que as postagens no blog não sejam "apenas uma transcrição (literal ou não) das reflexões semanais do estágio" (ver http://peadsaoleopoldo.pbworks.com/Portfolio-de-Aprendizagens), o que pude constatar nesta postagem.
Acredito no teu potencial e capacidadde de reflexão, por isto recomendo que nas próximas postagens procure focar mais nas TUAS APRENDIZAGENS. Minha sugestão é que destaque algum ponto que consideras importante em tua prática para aprofundar teu estudo e reflexão. Em relação a esta postagem, podes sintetizar o relato da atividade proposta e avançar mais na reflexão sobre gênero provocada pelos questionamentos da turma. Uma sugestão de leitura é o texto FREIRE, Paulo. Opressão, classe e gênero. In. FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo, Unesp, 2001, p. 257-268. Entrevista concedida a Donaldo Macedo.
Qualquer dúvida estou a disposição.
Abraços, Cátia
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