segunda-feira, 21 de junho de 2010

"NÓS PRECISAMOS DA ARTE PARA NÃO MORRER DE VERDADE". (Nietzsche)






Desejo refletir um pouco sobre a questão da arte na educação. No decorrer da semana que passou trabalhei com minha turma a vida e a obra de Tarsila do Amaral, com ênfase na obra “Os operários”, da qual fizemos uma releitura. A escolha da obra se deu em função da temática que estávamos trabalhando no projeto de aprendizagem NOSSA CULTURA, pois esta obra representa a grande diversidade étnico-cultural que compõe o povo brasileiro.
O trabalho, no entanto, levou-me a refletir para além da temática, mas à arte em si, enquanto instrumento de emancipação do ser humano e como alavanca de construção de conhecimento.
Ao perceber o envolvimento das crianças com o trabalho, desde a pesquisa da vida e da obra da artista até a própria concepção e confecção da releitura da obra, pude perceber o quanto a arte se constitui num elemento de extrema importância para a formação do ser humano. Arte é, antes de tudo, interação, uma forma de comunicação dialógica, onde a pessoa dialoga consigo mesmo, com os outros e com o mundo através das representações que constrói no fazer artístico (Freire, 1997).
Beatriz Barros Melo, professora de arte/educação da Universidade Federal de Pernambuco – UFPEA, coloca, em entrevista para o Jornal Utopia (2005), que a “arte trabalha com idéias, sentimentos, proposições que nem sempre são ou podem ser explicitadas em palavras, pois estão na área de conhecimentos subjetivos. Por ser assim, a arte é estruturadora, pois é esse movimento de emitir, falar, cantar, grafar ou gesticular que marca um anteparo ou deixa no ar mensagens que nos levam a reconhecer o mundo. A arte, então, desenvolve sim, capacidades cognitivas”.
Por outro lado, o trabalho através da arte numa perspectiva criadora e emancipatória proporciona a possibilidade de participação, engajamento, conhecimento pessoal e coletivo, auto-identidade, respeito e conhecimento favorecendo o contato com vivências subjetivas, educando o sentimento; e levando à reflexão sobre as vivências e os objetivos dos indivíduos e dos grupos.
Paulo Freire, no conjunto de sua obra, projeta uma educação cujo cerne é o humanismo, uma prática da dialética libertadora, do ser humano que se educa com o outro, mediatizado pelo mundo. Essa educação voltada para a libertação e a transformação necessitam de outros aspectos além do desenvolvimento das capacidades cognitivas, que propiciem a percepção mas também a consciência crítica e a ação criadora. “É impossível, segundo o pensamento freireano, estabelecer qualquer ação humana que não seja, em si, comunicação dialógica. O ensino da arte deve ser assim, propiciador.” (Melo, 2005)
Observando o trabalho da turma, no transcorrer da semana, pude vivenciar todos esses aspectos da arte integrada à educação. Pude perceber a turma construindo, tecendo hipóteses, buscando informações, identificando-se com as obras apresentadas e criando, a partir dessas identificações, outras obras que contemplassem a sua leitura de mundo de forma mais abrangente.
Todos são capazes de criar e é necessário compreender que o processo de criação não significa somente originalidade, mas implica em outras características como as demonstrações de criatividade, a sensibilidade de perceber problemas, a fluência, a flexibilidade, a interpretação. A educação criadora vai estimular todos esses diferentes aspectos da possibilidade de inserção de pessoas dentro do grupo para que possam atuar de maneira inovadora e diferenciada nesse grupo nas mais diversas situações.
Em algum momento, em todo o processo de “boniteza” da criação, um traço se torna expressivo, uma forma se faz significante e possibilita outro tipo de leitura. Nesse momento, a arte está efetivamente inserida no contexto do ensino e da aprendizagem. Não é uma questão de técnica nem de aprimoramento, é simplesmente expressão, beleza, sentimento. A beleza encanta e absorve e, por isso, não pode estar distante do processo educativo. Quando se juntam a arte e a educação, novos olhares se formam, novos tipos de intervenções se projetam, novas relações se constroem mediadas pelo mundo e pelo processo criativo.
Durante muito tempo, trabalhei a arte em sala de aula como uma forma de aprimorar habilidades. Hoje percebo que a arte na educação é muito mais que isso, pois envolve todo um conjunto de ações que possibilitam a capacidade criadora, a percepção, a análise e a síntese, sempre numa perspectiva dialógica e de possibilidades de intervenção e de transformação. O trabalho pedagógico através da arte traz em seu bojo a criticidade, a consciência e a humanização que se fazem imprescindíveis num processo de educação para a liberdade e para a emancipação.

REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. São Paulo: Paz e Terra, 1994.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes indispensáveis à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
MELO, Beatriz Barros. In Jornal Utopia. Pernambuco: Centro Paulo Freire – estudos e pesquisas, nº12, 2005.

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