quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

MEU PRIMEIRO SEMESTRE



Quando ingressei no PEAD – UFRGS, tinha essencialmente uma expectativa: concluir um curso de graduação sem precisar gastar uma fortuna e sem precisar cumprir horários rigorosos de aulas.

Venho de uma trajetória na qual iniciei diversos cursos de graduação, em diversas instituições, e sempre esbarrei em obstáculos que me levaram a não concluir nenhum deles. Ou o dinheiro não era suficiente, ou o trabalho absorvia todo o meu tempo, ou os filhos precisavam da minha atenção... Enfim, acabava abandonando os cursos e sempre pensando “no semestre que vem eu volto”.E não voltava.

Ao surgir a oportunidade de fazer o PEAD, fiquei dividida. Havia recentemente trancado a matrícula no curso de Letras – Português/Inglês, na FEEVALE, por pura falta de dinheiro. Estava gostando muito do curso, pois, mesmo tendo iniciado outros, sempre voltava para a área de Letras, pela qual sou apaixonada.

Coloquei-me, então, num dilema: aproveitar a oportunidade do PEAD e ter condições de concluir uma graduação ou perseguir o desejo de continuar o curso de Letras, mesmo sabendo que dificilmente teria condições financeiras para tal.

Resolvi prestar o vestibular e decidir depois. Talvez esperasse algum sinal divino que me ajudasse a decidir o q eu fazer. E talvez ele tenha vindo, pois fui aprovada em primeiro lugar. Ficou difícil não ir adiante, afinal, era a UFRGS, meu sonho de consumo acadêmico, apesar de o curso não ser bem aquilo que eu desejava. Mas passei, mais uma vez, pela porta das decisões e fui em frente.

Logo nos primeiros dias de aula presencial descobri algo fascinante: mais do que fazendo um curso de Pedagogia à distância, eu estava participando de um momento histórico academicamente falando. O que eu estava tendo condições de vivenciar, juntamente com meus colegas, professores e tutores, era um processo de construção que transcendia os limites pragmáticos do mundo acadêmico. Estávamos nos lançando numa viagem da qual ninguém realmente conhecia o itinerário. Estávamos todos descobrindo juntos, ensinando uns aos outros...aprendendo uns com os outros...enfim...buscando o desconhecido, pois ninguém tinha nenhuma certeza da forma que o curso tomaria. Havia diretrizes, mas precisávamos estar abertos às adaptações, aos improvisos, às correções, às mudanças...Precisávamos estar abertos ao mundo e prontos para receber os sinais da mudança e a nos adaptar a elas.

Confesso que me assustei. Comecei a pensar que tudo parecia muito festivo e que todos estavam tão preocupados com a ferramenta da tecnologia que a lavoura do conhecimento não estava sendo nem regada. Tínhamos que lidar com o ROODA, o pbwiki, os blogs...um emaranhado de ambientes virtuais. Complicado para quem utilizava o computador apenas para digitar textos e, eventualmente, enviar e-mails.

Não sentia propriamente dificuldade em lidar com a tecnologia, mas era tudo tão novo...e eu nem sabia se queria isso mesmo... E comecei a tentar desistir novamente, na mesma compulsão que me levara a abandonar os cursos anteriores. Todos os argumentos que usei para isso são válidos e verdadeiros. Era a pura verdade que, trabalhando um turno na escola e o outro no CEPROL – Sindicato, do qual era vice-presidenta, meu tempo era muitíssimo escasso. Também era verdade que três filhos adolescentes necessitavam da minha presença. Era verdade, além disso, que aquele primeiro semestre foi particularmente atribulado, com inúmeros eventos e acontecimentos não esperados e que meu único computador, na época, assemelhava-se a uma máquina de escrever elétrica... Enfim, era verdade que estava muito difícil de prosseguir.

Difícil, mas jamais impossível. Comecei a avaliar a situação como um todo. De repente, me dei conta de que, por menos que eu tivesse acompanhado do curso, já sentia diferenças na minha vida e na minha prática. Percebi que havia me tornado uma pessoa mais ligada ao mundo e ao que acontecia nele e que, após o segundo encontro presencial, já estava aplicando na escola o que havia descoberto.

Construí blogs com os alunos, aprendi a lidar com o Power Point que era, para mim, um mistério, desvendei os segredos do Word e descobri outros recursos que nem imaginava que existiam...Deslumbrei possibilidades. Tudo isso, à luz da teoria, me levou a crer novamente no processo de construção coletiva do conhecimento.

Penso que isso foi a principal mudança que se deu em mim, nesse período: o resgate da crença na educação e na importância do meu papel como professora. Isso me fez não desistir e atender os insistentes chamados da Cris e da Lisi, do Pólo de São Leopoldo para que eu retornasse porque tinha condições de “correr atrás”.

Recomecei com vontade e aprendi muito. Entendo agora melhor Paulo Freire, em “Pedagogia da autonomia”, quando diz que “ensinar exige rigorosidade metódica”. Ensinar exige disciplina e aprender exige igualmente. Aprendi que preciso ser mais rigorosa com meu método, com meu tempo, com as minhas prioridades. E isso é uma aprendizagem que fui construindo a partir do primeiro semestre desse curso.

Aprendi, também que a Pedagogia não tem a característica que sempre lhe atribuí: um conjunto de terias criadas em gabinetes por pessoas que nunca precisaram pegar no giz.
A verdadeira Pedagogia é a mão na massa, a descoberta, a construção, a abertura para ensinar aprendendo e aprender ensinando, a crença no ser humano, a vontade de transformar o mundo, a valorização da vida, a capacidade de adaptação, a flexibilidade de pensamento, o exercício do diálogo...Enfim, o mundo cabe dentro das relações pedagógicas e elas podem se transformar na essência de crescimento se soubermos conduzir com propriedade seus processos. Isso é, segundo Moacir Gadotti “A boniteza de um sonho”. E se o sonho é bonito, porque não tentar com todas as nossas forças realiza-lo?

Continuo uma amante das Letras e ainda tenho o desejo de completar minha formação nessa área...Mas ingressar na Pedagogia à distância da UFRGS foi um marco diferencial na minha vida que fez com que eu me tornasse uma pessoa mais completa e uma professora mais apaixonada e com muito mais fé naquilo que faço.

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