
Nesse quarto semestre do PEAD posso afirmar que a transversalidade das interdisciplinas, na minha opinião, é um diferencial nesse curso. No meu caso, por ter tido uma formação muito tradicional e conteudista, a fórmula do curso por si própria já é uma aprendizagem. A interdisciplinaridade tem assumido, para mim, contornos concretos e posso ver hoje, na minha prática, esse viés de descompartimentação que tem sido essencial na transformação do meu fazer pedagógico e na qualificação da aprendizagem de meus alunos e alunas.
Exemplo disso é a construção interdisciplinar dos conceitos de espaço e tempo. Trabalhamos essas noções de forma aprofundada, saindo da singularidade da simples localização no espaço e no tempo para adentrar nas esferas do domínio do nosso próprio espaço e da atuação no nosso tempo.
O trabalho com as identidades de cada aluno e aluna, resgatando suas histórias de vida e construindo as linhas de tempo de cada criança nos proporcionou a compreensão de nossa inserção no mundo e de nossa importância no tempo histórico. Tanto eu como meus alunos e minhas alunas pudemos perceber que nossas histórias de vida, convergindo ou não, possuem um contorno próprio que vem ajudar a definir o que somos hoje. Assim, através da análise dessas linhas de tempo, pudemos compreender melhor os aspectos culturais que permeiam nosso cotidiano e que nos impelem, de alguma forma, a certas escolhas e a assumir certos padrões. Nesse aspecto, foi importante fazer a relação com os conceitos de sustentabilidade e de visões da natureza que trabalhamos também nesse semestre, o que também nos fez pensar que cada um e cada uma de nós é parte do universo e, de fato, responsável por ele. Mostrei à minha turma o filme “Balance” e fizemos uma boa análise de nossas atitudes no nosso espaço e no nosso tempo e da grande responsabilidade que temos perante o mundo, tanto no enfoque ambiental, como nos enfoques sociais, culturais e políticos.
Importante essa descoberta de que o tempo não está apenas no relógio ou no calendário e de que o espaço não está apenas no mapa. Trazer esses conceitos parra o contexto histórico na perspectiva da nossa atuação como sujeitos integrados aos movimentos sócio-históricos-culturais e ativos na dinamicidade do mundo promove a educação emancipatória do ser humano, munindo-o não só de condições instrumentais para medir, calcular e administrar seu tempo e espaço, mas da consciência e responsabilidade sócio-ambiental, assim como da competência para tornar-se agente na busca da transformação do mundo, na busca de um novo mundo possível.
Essa mudança de perspectiva na minha concepção vem ocorrendo gradualmente, desde que iniciei o PEAD. Apesar da formação tradicional que tive, sempre busquei aprimorar minha prática a partir da leitura e da pesquisa. O PEAD me proporcionou uma overdose de reflexões e este semestre, em particular, trouxe-me ainda mais instrumentos para a continuação da minha caminhada como ser humano que cresce e profissional que se aprimora.
Entretanto, quero destacar entre todas as aprendizagens desse semestre uma que foi especialmente importante para mim pois me auxiliou na solução de um problema que estava enfrentando em relação à aprendizagem de meus alunos e alunas, que se referia à multiplicação e à divisão.
Sou uma profissional que há 24 anos trabalha na área da linguagem, tanto português como inglês e principalmente com os alunos maiores, de 6ª a 8ªséries. Ocorreu que, no início daquele ano letivo, fui arbitrariamente transferida de escola e, por não haver muitas alternativas de escolas cujo acesso fosse adequado para mim, acabei “indo parar” numa escola onde a vaga que havia era para a disciplina de Matemática, na 4ª e 5ª série. Fiquei muito angustiada, mas enfrentei o desafio. Encontrei as turmas de 5ª série com muita dificuldade na aprendizagem da multiplicação e divisão. Tentei de várias formas (agora posso ver que eram formas bastante tradicionais e nada construtoras dos conceitos) mas não ocorria nenhuma mudança. Apesar de ter tido desde o início um excelente relacionamento com os alunos e eles demonstrarem o tempo todo que gostavam de mim, não havia progressos na sua aprendizagem.
Confesso que foi com alívio que soube que uma das interdisciplinas daquele semestre seria relacionada à matemática. E foi com maior alívio que encontrei os estudos que realizamos sobre o campo multiplicativo. Descobri, então, que estava enveredando por caminhos sem significado para os alunos, me fixando no cálculo e no algoritmo, mas esquecendo do principal: a construção do conceito e das ideias relacionadas às operações.
Destaco essa como uma aprendizagem muito significativa no semestre devido ao grau de prazer que me trouxe descobrir não só para mim, mas com todas as crianças, que matemática não é Bicho Papão. Descobrir que matemática é para todas as pessoas e que basta pensar e buscar a relação daquela aprendizagem com a nossa vida. Aprendemos a encontrar essa relação e foi muito bonito. As crianças perderam o medo da matemática e esperam minha aula com alegria. E eu - a professora de português que nada sabia de matemática e nem queria saber – redescobri o prazer de aprender coisas novas e que antes eram puro mistério. Isso me transformou e considero aprendizagem aquilo que nos transforma. Por isso esta aprendizagem tão simples foi tão importante para mim.
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