
O quinto semestre do curso de Pedagogia foi marcado pelo estudo da organização e da gestão da escola e dos diversos sistemas institucionais que a abrangem. Permeou, entretanto, essa discussão a questão do papel dos educadores e das educadoras nesse contexto.
É comprovada a importância da gestão democrática e participativa na escola, é sabido que a escola se compõe de diversos setores e segmentos da sociedades e das esferas de poder, assim como se compreende que a escola não é o indivíduo, mas é um corpo composto de todos os indivíduos agindo e interagindo na diversidade. Entretanto, as leituras e reflexões realizadas naquele quinto semestre me levaram a pensar muito acerca das questões que envolvem o papel do professor no processo educativo e das representações que são construídas a partir dessas questões. Todas as minhas reflexões me levam à mesma conclusão: nos ombros do professor tem sido depositada toda a carga desse processo e, com isso, se torna ele o "salvador" ou o "carrasco" não só do sucesso ou do fracasso aluno, mas da escola como um todo. Nesse sentido, percebe-se que o professor tem sido sistematicamente responsabilizado pelos indicadores de resultados utilizados para "medir a produtividade" escolar.
Estamos diante de um quadro de perspectivas dramáticas. A escola pública cada vez mais assume um caráter assistencialista que pressupõe o preenchimento das lacunas afetivas, sociais e econômicas que compõem nossos alunos. E no centro desse acúmulo de desajustes e desigualdades está colocada a figura do professor.
Muitos discursos pedagógicos elaborados em gabinetes tentam definir nosso papel diante desse quadro, mas pouco se fala, na rede pública de educação, dos limites da nossa atuação nesse contexto. Somos colocados como os "salvadores", numa perspectiva basicamente iluminista que nos traz a responsabilidade de resgatar nosso aluno das "trevas" do mundo desigual e frustrante em que vive. Ou, numa concepção pragmática, nos tornamos os "carrascos", aqueles que, por sua ação equivocada ou ineficiente, obstruem o seu crescimento e o levam ao "fracasso escolar".
E cá estamos nós, professores, espremidos entre a cobrança de resultados e a falta de recursos e suporte para atingi-los conforme o sistema julga ser adequado.
Qual é, afinal, o real papel do professor nesse emaranhado de variáveis que perpassam a escola institucionalizada? Até que ponto nossas ações podem ou não ser determinantes diante de uma realidade estrutural que nos é imposta e que não propicia o crescimento humano? Seremos capazes de "operar milagres"? Precisamos simplesmente aceitar as adversidades de nossa profissão como problemas circunstanciais que vulgarmente chamaríamos "ossos do ofício"? Ousaremos, quem sabe, subverter a lógica capitalista na qual a escola se converte em reprodutora desse sistema que não favorece a emancipação humana, mas prioriza a superação de índices e estatísticas?
Não podemos mais aceitar que nos imponham papéis que não são nossos. Não somos salvadores iluministas. Também não somos pragmáticos carrascos. Sobretudo, não podemos mais ser "inocentes úteis" e permitir que nos atribuam responsabilidades que transcendem nossos limites profissionais e humanos.
O professor não opera milagres. Por mais criativo, sensível, afetivo e teoricamente instrumentalizado que seja, o milagre está além de seus limites. O milagre é metafísico. Somos agentes sociais que interagem com outros agentes sociais e, como limitadora dessa interação, temos a instituição "escola". O professor não é a escola, mas está na escola e, na maioria das vezes, é obrigado a se adaptar à sua estrutura.
Discutir o papel do professor exige que se discuta anteriormente a escola e todas as questões estruturantes que nela se insurgem, como Projeto Político-Pedagógico, currículo, gestão escolar, coordenação pedagógica, regimento, estrutura física, enfim, todos os aspectos que, de forma direta ou indireta, certamente repercutirão no trabalho desenvolvido na instância final: a sala de aula.
O professor não é culpado, tampouco é inocente. O fato é que, apesar do discurso da burocracia confortavelmente instalada nos gabinetes, o professor não é réu e o aluno não é vítima. Todos são atores num processo de construção que precisa repudiar qualquer tipo de julgamento apriorista. Somos todos navegantes, como nos diz José Saramago, em busca de nossas ilhas desconhecidas. E ninguém tem o direito de restringir nossas ações nessa busca ou de definir qual é o norte em nossas bússolas.
Paulo Freire nos coloca que "Ninguém educa ninguém. Ninguém se educa sozinho. As pessoas se educam umas às outras." Logo, o mundo cabe nas relações pedagógicas e a educação não comporta salvadores e nem carrascos. Educação envolve pessoas que se ajudam, se apoiam, se aconchegam, mas também se insurgem, se investem e se empoderam, numa relação recheada de sentido e, sobretudo, respeito.
A escola é um todo que precisa de comprometimento coletivo. Nessa relação não cabe hierarquia, mas interação e respaldo. Não cabe autoridade, mas respeito às opiniões e diferenças. Não cabe assistencialismo, mas solidariedade e construção de limites.
Se o professor falha, a escola falha. Se o aluno fracassa, a escola fracassa. E não haverá milagres suficientes para resgatar o irresgatável.
Não somos salvadores. Não somos carrascos. Somos todos vítimas do assédio cruel de uma realidade sórdida e desigual. A escola precisa, sim, inverter essa lógica e enfrentar definitivamente suas fragilidades. Só assim, juntos e sem culpa nenhuma, poderemos vislumbrar o caminho para uma escola que promova a construção do conhecimento e a formação do indivíduo crítico, autônomo e capaz de atuar efetivamente na transformação de si mesmo e do mundo.
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