
O segundo semestre foi fundamental no sentido de me ajudar a compreender melhor a instituição escola nos seus aspectos históricos e políticos. O estudo da do texto Maquinaria Escolar desocultou como e quando se deu a criação da escola primária, e quais os interesses políticos e ideológicos que estiveram envolvidos no momento de sua criação. Os autores discutem a invenção da infância, a criação de um espaço específico destinado à educação das crianças, o aparecimento desse corpo de especialistas chamados de professores, o combate a outros modos de educação existentes na sociedade, possibilitando finalmente que a escola se institucionalize como instância obrigatória mantida pelos poderes públicos.
Aponto a interdisciplina Escolarização, espaço e tempo numa perspectiva histórica e, em especial o estudo do referido texto porque faz o resgate da história da escola primária, de caráter obrigatório e gratuito, como uma invenção do século XX, onde os professores se tornaram funcionários do Estado e consolidaram-se as políticas de regulamentação da infância. Entretanto, esses aspectos não se apresentam simplesmente como forma de proteção da infância, mas como uma teia de interesses políticos, sociais e econômicos que levaram a institucionalização da escola como instrumento de invenção da infância moderna e da “modelagem” da mesma nos moldes do sistema da ordem vigente.
Esse estudo me levou a refletir, também, sobre o papel que a Igreja tem representado na esfera da educação. Os homens da igreja colocaram em ação um conjunto de estratégias com o objetivo de conservar e aumentar o prestígio e os poderes da própria igreja. Para isso, tanto católicos como protestantes voltaram-se à educação dos jovens, criando espaços específicos para esse fim. A educação da nobreza e das classes favorecidas era sempre mais privilegiada, mas a pobreza não era esquecida, recebendo uma educação mais paternalista e voltada a formar jovens reprodutores da fé e da ordem.
A Igreja, entretanto, vem modificando suas estratégias no que tange à educação e a relação com as comunidades, mas seus objetivos permanecem os mesmos: manter e ampliar o seu poder sobre os indivíduos. Portanto, a Igreja investe na educação doutrinária. As igrejas, em suas diversas confissões, elegem táticas que buscam trazer até elas a comunidade, mais especificamente os jovens. Daí vêm as práticas católicas, como a preparação para a Crisma, a 1º Comunhão e os grupos de jovens. A igreja evangélica também nos traz exemplos de estratégias que investem na reunião e doutrinação dos jovens e enfatiza o caminho das artes, principalmente a música. A escola se torna, muitas vezes, aliada da igreja na sua prática doutrinária.
Outro ponto que considero importante resgatar foi o estudo da infância (interdisciplina Infâncias de 0 a 10 anos), que também trouxe uma configuração histórica a esse contexto. Fhilippe Áries aponta o surgimento e configuração da infância a partir do século XVI, sendo que nesse período era privilegiada a fase cronológica da juventude. O surgimento do bambino data do século XVIII, quando acontece, ainda, a separação de infância e adolescência, sendo que a figura do bebê só passa a ser considerada e valorizada no século XIX. Isso mostra que a infância foi sendo reinventada através dos tempos e que a escola contribuiu para essa reinvenção.
Traçando um paralelo entre a minha infância e juventude e as dos meus alunos, posso perceber que, na minha infância, a família se fazia mais presente e tinha maior influência sobre indivíduos. Havia menos variáveis que hoje se apresentam na vida das crianças e jovens através da globalização e a conseqüente influência da mídia, formando comportamento e opiniões. Éramos educados a partir dos princípios familiares e a obediência aos pais e professores (aos “mais velhos”) era supervalorizada. Hoje se percebe que as crianças e jovens tendem a rebelar-se contra a autoridade dos adultos, desafiando dogmas e convenções. Apesar disso, pobres e ricos permanecem em patamares diferenciados e a desigualdade social, apesar de ser detectada, é aceita como algo que não podemos mudar. A questão de gênero modificou-se nos aspectos comportamentais, mas continua-se atribuindo papéis e estereótipos diferenciados para meninos e meninas e a homossexualidade, apesar de ser reconhecida como fato, permanece como fonte de discriminação e preconceito. Portanto, no meu entendimento, as relações com a infância se alteram através do processo histórico, mas não se modificam em seus valores mais internalizados pela sociedade e nem em seus objetivos históricos.
A escola institucionalizou-se como o espaço de educação absoluto porque através dela haveria a possibilidade de tutelar o indivíduo, principalmente o operário, que, se não “trazido à luz”, poderia prejudicar a ordem e a paz social. Acredito que a escola é necessária (no contexto pedagógico contemporâneo e progressista), pois favorece o contato com outras crianças e alarga as possibilidades de aprendizagem formal, mas contato com a família também é fundamental e se configura no embasamento emocional e social da criança, educando na subjetividade. E nada impede, hoje, que nossas crianças recebam todas as possibilidades de educação.
Hoje vivenciamos e queremos acreditar que estamos construindo um novo conceito de escola, cujos objetivos, ao contrário de perpetuar a ordem social existente, é possibilitar a capacidade de transformação. Cabe a nós, educadores, portanto, exercitar e possibilitar a visão de mundo e a crítica, instigar o debate, confrontar concepções, fomentar a capacidade de ação e reação, dinamizar as relações. Não entendo o educador que não se obstina na tarefa do diálogo e da descoberta, pois somente por esse caminho é que poderemos formar indivíduos agentes de transformação. É nessa relação dialógica que se constrói o respeito às diferenças e que se concretiza o indivíduo sujeito da sua história e a do mundo.
Minhas reflexões vêm no sentido de que nós, que já conhecemos a escola como obrigatória e gratuita, brigamos por esse direito sempre e jamais questionamos o porquê de, em algum momento da história, o direito à educação tenha se universalizado e se tornado obrigatório. Acredito na educação como fonte de emancipação do individuo e de transformação da sociedade e da ordem estabelecida. Continuo defendendo a obrigatoriedade e a gratuidade do ensino, mas não acredito nos elementos e razões que forjaram essa escola obrigatória e gratuita.
Todas as pessoas devem ter, sem dúvida, direito à educação, mas educação de qualidade, emancipatória, que forme indivíduos capazes de transformar, que possibilite as descobertas, que promova as discussões e flexibilize o currículo a fim de adequá-los às necessidades da comunidade. Esse é o tipo de educação a que todos os cidadãos têm direito: educação sem “enturmação”, na qual os profissionais são respeitados e valorizados e os alunos não são vistos como futuros reprodutores do sistema, mas como seres capazes de mudar o mundo. Alguns chamarão de utopia, mas eu persigo essa utopia e, por isso encerrarei essa reflexão com um poema de Paulo Freire que nos reafirma, com palavras simples, a importância de termos clareza do papel da escola em nosso tempo.
Escola é...
O lugar onde se fazem amigos.
Não se trata só de prédios, salas,
Quadros, programas, horários, conceitos,...
Escola é, sobretudo, gente.
Gente que trabalha, que se alegra,
Se conhece, se estima...
O diretor é gente,
O coordenador é gente,
O professor é gente,
O aluno é gente,
Cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor
Na medida em que cada um
Se comporte como colega, amigo, irmão.
Nada de ilha cercada de gente
Por todos os lados.
Paulo Freire
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