quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

SEXTO SEMESTRE DO PEAD - REFLEXÕES IMPORTANTES


A interdisciplina de Filosofia da Educação, assim como Desenvolvimento da aprendizagem no enfoque da psicologia II, no sexto semestre do PEAD, me trouxe a oportunidade de refletir sobre questões que envolvem as práticas pedagógicas e a educação como um todo, mas que estavam latentes em meus estudos. Destaco o estudo do texto de Adorno, Educação após Auschwitz, que apontou com clareza algumas possíveis causas para que a barbárie de Auschwitz tenha ocorrido no passado e projeta a possibilidade concreta de que possa voltar a ocorrer no futuro, pois essas condições se fazem presentes na sociedade de hoje, o que é afirmado com ênfase pelo autor quando nos coloca que “a estrutura básica da sociedade e as características inerentes que a isso induziram são hoje as mesmas de vinte e cinco anos atrás.”
Dentre essas possíveis condições para uma recaída para a barbárie destacam-se a carência da reflexão dos homens sobre si mesmos, ou seja, a falta de uma educação efetiva que conduza à autoreflexão crítica. Isso nos revela objetivamente que vivemos ainda em tempos nos quais a inconsciência sobre nós mesmos, nosso papel no mundo e nossos atos carecem de reflexão. Essa inconsciência pode provocar a degeneração da humanidade e levá-la a praticar atos cruéis como o holocausto.
O autor também coloca que, sob um enfoque sociológico, nossa sociedade “incuba tendências desagregadoras”. Com isso, existe uma pressão muito forte do “geral predominante” sobre o individual, o que desintegra a identidade do homem, assim como sua capacidade de resistência e as qualidades que podem levá-los a opor-se ao crime e à barbárie. Além disso, percebe-se que existe na sociedade uma disposição de aderir ao poder, submetendo-se às idéias e às normas de autoridades externas, não importando que sejam elas os algozes de toda uma civilização e que possuam um caráter manipulativo que manobre as idéias e as ações de todo um povo, como aconteceu na Alemanha da Segunda Guerra Mundial.
Insurge-se, também, como condição importante para o acontecimento do holocausto, a indiferença surgida a partir da mesma inconsciência e desagregação já comentadas anteriormente. Essa indiferença reside na busca absoluta dos interesses próprios e individuais em detrimento dos interesses comuns, o que leva a humanidade a uma corrida frenética e cruel atrás de objetivos desconexos.
Para evitar que barbáries como o holocausto se repitam, Adorno aponta como caminho a educação para a autoreflexão crítica. Afirma ele que “Deve-se conhecer os mecanismos que tornam os homens assim,(...) mostrar esses mecanismos a eles mesmos e buscar evitar que eles se tornem assim.” Para evitar que outras barbáries como Auschwitz tornem a acontecer, devemos lutar contra essa inconsciência, “devem os homens ser dissuadidos de, carentes de reflexão sobre si mesmos, atacarem os outros”. (ADORNO, Educação após Auschwitz). Para isso, é necessário um plano de educação para a autoreflexão crítica, iniciada e enfatizada na primeira infância, quando se forma o caráter e o indivíduo se constitui como pessoa.
Sobre essa educação, Adorno coloca:
“Se falo da educação após Auschwitz, tenho em mente dois aspetos: primeiro, a educação infantil, sobretudo na primeira infância; depois, o esclarecimento geral, criando um clima espiritual, cultural e social que não dê margem a uma repetição; um clima, portanto, em que os motivos que levaram ao horror se tornem conscientes, na medida do possível.” (ADORNO, Educação após Auschwitz)
Creio que a citação acima seja a melhor contribuição de Adorno para nós, educadores e pesquisadores da educação. Vivemos um mundo no qual a barbárie existe cotidianamente. Menos coletivamente do que no holocausto, mas rotineiramente. Todos os dias tomamos conhecimento e vivenciamos pequenos e grandes demonstrações de violência. Convivemos com roubos, assaltos, assassinatos, extorções, corrupção, enfim, as mais variadas formas de violência física ou simbólica, que podem, metaforicamente, ser vistas como pequenos holocaustos, que aos poucos vêm corroendo as estruturas cada vez mais frágeis da nossa sociedade.
É importante, portanto, que tenhamos a clareza de que a educação é a única possibilidade concreta que se vislumbra que possa trazer a humanidade para a consciência do que está se passando e modificar os rumos dessa caminhada insólita. Uma educação que construa, na infância, as possibilidades da reflexão efetiva e no decorrer da vida se torne uma fonte permanente dessa mesma reflexão e de esclarecimento. Uma educação cujos valores se agreguem aos homens de forma a se tornarem inerentes a ele e que aponte os caminho de um mundo melhor, mais justo, mais igual, inclusivo e menos cruel.
Nesse sentido, as interdisciplinas de Educação de pessoas com necessidades educacionais especiais e Questões étnico-raciais na educação também contribuíram para minhas reflexões e minha busca de encontrar caminhos para a efetivação de minhas concepções. A partir da análise das relações que permeiam a escola como se configura hoje, pude pensar sobre a inclusão na escola atual. Existem diferenças hierárquicas entre os papéis assumidos pelos sujeitos envolvidos no processo educativo, o que faz com que aluno e professor não estabeleçam uma efetiva interlocução, principalmente quando se trata de uma relação com sujeitos “diferentes”, marcados pela “anormalidade”. Em face disso, há a urgência da necessidade de repensar os sujeitos, discutindo as intervenções e o contexto no qual estão inseridos, superando, assim, relações institucionalizadas de causa/efeito que vêm se instalando.
A inclusão traz consigo uma variedade de sentidos, muitos deles permeados por análises superficiais que vão desde à premissa de que a escola especial também é inclusiva até à definição da inclusão como metodologia pedagógica. Entretanto, nós, educadores portadores da flexibilidade e do compromisso necessário, queremos ir além da superficialidade e acreditar que a escola pode ser um espaço efetivo de vida e crescimento, abandonando os “edifícios” didáticos solidamente construídos por arraigados conceitos empiristas e nos dispondo a construir tendas (construções leves, flexíveis, adaptáveis, resistentes, permeáveis à luz e impermeáveis às intempéries). A educação sob as tendas é humana, dialógica, investigativa, negociada, sensível. É a educação que pressupõe a inclusão de forma endógena, que propicia a constante reflexão sobre os ideais educativos e cultiva nos sujeitos a habilidade na construção de tendas.
No entanto, a inclusão não é um processo espontâneo. Também não se trata de uma questão legal, burocrática ou administrativa. Às convicções ideológicas e pedagógicas devem aliar-se as condições políticas e financeiras para que se concretizem as práticas inclusivas na escola. É necessário garantir o acesso e a permanência na escola dos indivíduos em desvantagem de forma que essas pessoas deixem de engordar as estatísticas como “os que não aprendem” ou que “têm dificuldade em aprender” e, com isso, reprovam e abandonam a escola.
A reflexão sobre a educação inclusiva é urgente, e nesse contexto é imperativo que trate da avaliação como um capítulo de destaque. Só se concebe a educação como um processo de inclusão quando a avaliação vem a contribuir para o aprimoramento constante desse processo, a partir de uma visão mediadora e que analisa o sujeito tendo ele mesmo como seu parâmetro. Para isso, também se faz fundamental a ênfase na formação dos professores, a partir desse ideal educativo que vem tomando corpo no âmbito dessa sociedade de exclusão e desigualdade.
Percebem-se, também, como emuladores da educação inclusiva, alguns aspectos associados à gestão. As exigências econômicas externas, além das conveniências político-administrativas vêm desviando as responsabilidades do processo educativo do agente Estado para o agente Escola. Nesse contexto, a escola torna-se a responsável pelos rumos e resultados da educação em todos os seus aspectos, pois a “autonomia” concedida a ela assim possibilita. O professor, nesse contexto, é o gestor do processo e o principal responsável por ele. Alguns desavisados podem definir essa conveniente situação como “gestão democrática”, o que não corresponde à realidade. Há sim a necessidade da descentralização de alguns elementos da escola, mas nunca todos. Nessa relação, todos os entes envolvidos devem assumir suas responsabilidades e papéis, cabendo a cada um prover as condições ideais para que o processo educativo flua de forma encadeada e colaborativa, mas nunca isoladamente, numa visão utilitarista. Educação inclusiva e gestão democrática andam juntas, mas isso precisa ocorrer de forma verdadeiramente participativa, com a valorização e o respeito de todos os sujeitos que compõem o processo educativo, de modo que todos sejam agentes e nenhum se torne objeto das ações dos outros.
A democratização do conhecimento como um processo individual que nasce do coletivo faz parte do contexto da educação inclusiva e, para isso, o professor deve ter acesso à formação e qualificação constante e a escola precisa estar aberta a todos os desafios e possibilidades que permeiam a educação inclusiva. Só assim nossas escolas estarão cumprindo os princípios constitucionais que apontam para uma educação para todos, sem nenhum tipo de preconceito ou discriminação.

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